Se você encontrasse agora uma caixa com tudo o que deixou guardado desde a juventude, o que estaria lá dentro? É uma pergunta que vem me atormentando há horas. Quantas coisas podem ter sido embaladas pela covardia? Ou ainda, quantas coisas estão lá porque tive coragem de colocá-las ali para que um dia, talvez, fossem finalmente libertadas? Na minha caixa, provavelmente, tem muitos livros que me acompanharam. Diários de um tempo em que acreditava que folhas secas só caíam no outono, que um amor existia pela vida inteira, que mais tarde as coisas seriam bem mais fáceis. Na minha caixa tem fitas K7 (pra quem não sabe o que é é um dispositivo que guarda as melhores músicas de fossa de sua adolescência se
vc nasceu nos anos 70) gravadas da
FM, do tempo em que o quarto era refúgio de dias ruins. Deve ter por ali aquela
fitinha do Senhor do Bonfim que arrebentou, mas cujo desejo jamais se cumpriu, algumas fotos
carcomidas, nas quais já não reconheço a ingenuidade daquele olhar, revistas em
quadrinhos,
bilhetinhos do correio do amor que jamais foram entregues pelo medo da rejeição. No fundo da minha caixa devem estar as cartas longas, profundas e
irrascíveis que escrevi pro menino mais bonito do
cursinho de inglês, que jamais se virou na minha
direção. Como ele deve estar agora? Provavelmente careca,
barrigudo e ainda assim não vai se voltar em minha
direção... Tem ali
tb umas jóias
antiguinhas, presente bem intencionado, porém, equivocado do meu pai. Meu gosto por
bijouteria deve ter um cunho psicológico enorme. Só isso pra explicar a minha
predileção pelo que vai acabar em
qq momento. Se fosse ouro... ah, se fosse ouro duraria pra sempre. Mas como tenho medo do que dura pra sempre. Como aquele
tênis incrível que ainda tem um dos pés na
cx. Guardei pra lembrar como foi andar com liberdade pela primeira vez. Canetas que jamais usei e
perderam a tina, papéis de carta que jamais utilizei para enviar amor, chaveiros que jamais serviram para transportar o chegar e sair, panos que jamais viraram vaidade. Quanta coisa há ali para se lembrar. E esquecer. Se pudesse, o que faria com tudo isso que encontrou? Incinerar? Doar? Restaurar? Será que há restauro para o que ficou enterrado 20 anos? Mas a caixa está ali, na sua frente. Com tudo o que
vc quis lembrar e esconder. Que paradoxo é se encontrar consigo mesmo depois de anos de retóricas assumidas e posições radicais. Quem é você, afinal? A poeira daquela caixa ou o que fez após a tampa?
Divide aí comigo
Pra imaginação rolar solta, uma música que faz parte da minha caixa em quadro negro.